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O Pai Nosso como Esboço

Alguns a transformaram numa espécie de mantra que deve ser repetido dezenas de vezes para a obtenção de algum benefício espiritual; outros, não muito diferentes dos primeiros, acreditam que é um conjunto de frases mágicas que podem produzir algum bem àqueles que as pronunciam.
Pr. Marcos Granconato

Pr. Marcos Granconato

Oração
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Quando os discípulos de Jesus pediram que ele os ensinasse a orar (Lc 11.1), nosso Mestre proferiu a agora famosa Oração do Pai Nosso. Essa oração, porém, cujo objetivo, ao que parece, era servir como modelo para as súplicas agradáveis a Deus, teve seu propósito e natureza desvirtuados pela mente sempre pervertida dos homens.

Com efeito, alguns a transformaram numa espécie de mantra que deve ser repetido dezenas de vezes para a obtenção de algum benefício espiritual; outros, não muito diferentes dos primeiros, acreditam que é um conjunto de frases mágicas que podem produzir algum bem àqueles que as pronunciam. Num outro extremo existem cristãos que, mesmo sabendo que a Oração do Pai Nosso está na Bíblia, evitam recitá-la no todo ou em parte, com medo de serem identificados com os papistas.

Pessoalmente, eu me distancio de todas essas concepções. Creio que o Pai Nosso é a mais perfeita súplica que existe, que o Senhor Jesus quer que a usemos como exemplo e que, de alguma forma, ela deve fazer parte da nossa vida devocional. Como, porém, isso deve ser feito?

Bem, deixe-me fazer uma sugestão aqui. Considerando que a Oração do Pai Nosso tem um propósito didático, servindo para nos ensinar a orar a Deus, acredito que uma boa maneira de demonstrar que esse propósito foi atingido em nossas vidas é fazendo dessa oração um tipo de esboço. Como?

É simples. Considere cada frase dessa linda oração e use o seu tema como um link para tudo o que você pretende dizer e pedir. Por exemplo: A frase “santificado seja o teu nome” fornece a base para que glorifiquemos a Deus durante a nossa oração, destacando seus santos atributos ou pedindo que ele seja honrado com nossa vida, em nossa família e em nossa igreja.

Alguns a transformaram numa espécie de mantra que deve ser repetido dezenas de vezes para a obtenção de algum benefício espiritual; outros, não muito diferentes dos primeiros, acreditam que é um conjunto de frases mágicas que podem produzir algum bem àqueles que as pronunciam.

“Venha o teu Reino”, é obvio, deve ser dito para pedir que Jesus volte logo. Essa frase, porém, também pode nos conduzir a pedir que nossos amigos se convertam de modo que o Reino de Deus se expanda desde já, com o aumento de seus súditos. Tendo essa frase em mente podemos também pedir que ele refreie o pecado no mundo, usando (quem sabe?) os nossos governantes para isso, de modo que os valores do império do mal não se espalhem ainda mais.

“Seja feita a tua vontade” serve para nos conduzir a agradecer pelas coisas que não ocorreram como nós queríamos, curvando-nos sob a soberania do Pai e reconhecendo sua sabedoria na condução de tudo. É também uma frase que pode nos levar a expor diante de Deus nossas ansiedades, deixando tudo em suas mãos poderosas.

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Bom… Aqui chega a hora de pedir tudo de que temos fome. Confesso que quando oro seguindo esse modelo, esse é o momento de que mais gosto. É o momento em que eu peço tudo de que preciso e todas as coisas boas ao “paladar”. Peço, assim, que Deus me dê saúde, que os enfermos da igreja sejam curados, que minha viagem no feriado seja alegre, que eu possa comprar aquele presente bonito para a minha esposa, que minhas filhas tenham sucesso na vida, no estudo e no trabalho, que eu consiga pregar direito, que meus pais idosos não sofram tanto como têm sofrido… Peço, enfim, todo “pão” que ele puder dar. Não economizo pedidos nessa hora.

“E perdoa as nossas dívidas”. Ao recitar essa frase, é fácil notar que chegou a hora da confissão de pecados. Nesse momento eu me recordo de todas as minhas maldades e faltas. Lembro-me dos maus sentimentos que nutri no coração quando escrevi ou disse algo errado a alguém. Exponho as minhas cobiças, meus pensamentos mais sujos, minhas reações vergonhosas e toda minha auto-indulgência, orgulho, ira e desejo de ser maior do que os outros. Como é difícil esse momento da Oração do Pai Nosso!

“Assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Essa frase pressupõe que nós já perdoamos quem nos feriu. Porém, se isso ainda não aconteceu, chegou então o momento de fazê-lo e de dizer isso a Deus ou, pelo menos, pedir-lhe que nos capacite a perdoar. Nesse instante podemos também orar pelo bem dos nossos inimigos, suplicando que o Senhor lhes conceda, graça, misericórdia e paz. Não é um momento muito fácil para quem ora seguindo o Pai Nosso como esboço.

“E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do maligno”. Nesse estágio da oração, reconhecemos toda nossa fragilidade e dependência. Aqui pedimos forças para não fazer as coisas erradas que desejamos fazer e abandonemos de vez os pecados nos quais, vira-e-mexe, caímos. E não estou falando aqui somente de pecados nível hard. Estou falando também de “pecadinhos” como a fofoca, o desprezo por alguém, a preguiça de ir à igreja, a brincadeira de duplo sentido, o viver de cara fechada, a alfinetada no cônjuge, a olhadela no filme imoral… De tudo isso, seguindo a Oração do Pai Nosso, pedimos livramento, sabendo que essas coisas nos torturam, entristecem e escravizam.

Depois desse último pedido, a oração acaba. Tem mais um pedacinho na versão de Mateus, mas a crítica textual questiona se faz parte mesmo do original. Eu opto pelo texto mais curto, pois atende um princípio da crítica que, para mim, faz todo sentido. Isso, porém, não vem ao caso agora. O que quero no momento é apenas sugerir que, quando forem orar, usem, de vez em quando, o Pai Nosso como esboço. Talvez (e somente talvez) essa seja mais uma maneira de mostrar que somos discípulos de Jesus, o Deus amado, de quem é “o Reino, o poder e a glória para sempre. Amém”.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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Pr. Marcos Granconato

Pr. Marcos Granconato

Colunista

Pastor titular da Igreja Batista Redenção desde 1997, concentrando seu ministério na sede da igreja em São Paulo. É formado em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida (Atibaia, SP) e em Direito, pela Universidade São Francisco de Bragança Paulista. O Pr. Marcos também é mestre em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (São Paulo, SP). É autor de vários livros e atua como professor de Teologia Sistemática, Teologia Bíblica e História Eclesiástica desde 1984. Também atua como conferencista e preletor, ministrando cursos teológicos em diferentes partes do Brasil. É casado com Simone e pai de três filhas, Isabela, Helena e Sofia.

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